
Gostaria de explicar a função deste blog e a escolha do meu pseudônimo, maloqueiro. Trata-se de uma referência, o esmiuçar do tragicômico cotidiano de pessoas que residem e sobrevivem nas ruas. Do tipo que certamente você vê por todos os cantos da sua cidade, e sempre os teve como fantasmas algo indesejáveis a assombrar o brilho dela ou até como seres carentes da mais nobre fraternidade humana. Não importa. Aqui você saberá como é possível resistir sem o social, o ético, o básico e outros que tais.
Eu precisarei, ao te conduzir neste caminho (só explorado por quem a ele é condenado) traduzir usos (gírias e expressões típicas), situa-lo nos vários grupos existentes (pois mesmo na sub-sociedade há muita variedade) e nos ambientes inerentes como albergues, malocas (uma célula ou versão diminuta de uma favela), bocas de rango (locais geralmente religiosos, onde são servidas refeições gratuitas) e outros tais.
Contudo, creio que de início é preciso explicar a palavra central: maloqueiro. Na capital paulista, é assim que as pessoas “normais” se referem ao falar de necessitados em geral (inclusive os que possuem um lar bem pobre e continuam na miséria). No Rio de Janeiro há preferência pelo termo “mendigo”, e no Rio Grande do Sul, sua-se “esmoleiro”.
Sempre teremos um derradeiro fiapo de esperança. E, sim, você matou a charada: eu sou das ruas. Eu vivo nelas há cinco, seis anos. Tenho conhecimento de causa, não sou um observador, um amigo, simpatizante, jornalista ou representante de ONG que relataria o que lhe contam. Não. Apesar de eu ter óbvias discrepâncias em função do maior número deles, eu faço parte desse caldo, estou nele até o pescoço. Mas terei tempo para falar de mim, de como sucede a transição do mundo para o sub-mundo, e de dezenas com os quais convivi, sofri, reparti, até esqueci...

"O esmiuçar tragicômico do cotidiano de pessoas
que residem e sobrevivem nas ruas".
"Aqui você saberá como é possível resistir sem o social,
o ético, o básico e outros que tais".
"Não precisa esconder a carteira: eu não vou pedir trocados.
Desarme-se, relaxe e tente me ver como um ser (como você) somente".
Faz-se necessário destacar o quanto eu ainda me mantinha arredio a estreitar a distância íntima daqueles que me cercavam. Talvez, em certa medida, parte dessa recusa se mantém até hoje. Eu era um deles. Não integralmente, pois continuava algo inatingível com respostas monossilábicas, expressão pouco convidativa, e timidez exacerbada. Mesmo que houvesse precisão, eu não falaria nada. Eu temia que o meu objetivo de sair dali o mais rápido possível pudesse ser maculado. Parecia sentir o poder de influência degenerardora de condutas tão radicais para minha percepção familiar. Meu dissabor era a expectativa de que aconteceria, sumariamente, um ponto de convergência qualquer, alguém assumiria a função de Ponte da Amizade entre mim e aquele caudaloso e movediço riacho de sensações. E todo “mistério” traz atração e tende a aumentar o interesse por seus detalhes.
Na rua, todas as personalidades são marcantes, atuantes (dentro de sua disposição). É preciso “demarcar território”, controlar conscientemente todo o tipo de exposição e evidência, buscando equilíbrio entre o que esperam de nós e aquilo que estamos propensos a entregar. Aqui, eu me refiro ao nível psicológico, pois obviamente este controle não é possível nos demais campos. Ainda que agindo quase como se não estivesse no meio, eu temia que isso pudesse atrair mais do que o planejado.
Essa questão não era regida pelo preconceito. O caso não era aceitar me “rebaixar” para aquela condição. Os pontos maiores de aversão eram o medo do desconhecido, a lembrança, ainda recente, do mundo “normal”, e o receio de que minha tendência à aventura, leia-se erro, me pendessem para ainda mais longe. Eu ainda me sentia como a pessoa que transitava na calçada do outro lado da rua, olhando, com pena e apreensão, para os “mendingos” aglomerados embaixo do viaduto. Eu havia cruzado a barreira. Eu estava materializado ao lado deles, mas a minha psique seguia transitando fantasma entre os “comuns”. E esse espectro, ainda muito me assombraria, só que agora eu me tornara merecedor, receptor do mesmo tipo de olhar que antes portava...
Eu relutava em comer em público, ao ar livre. Incomodavam-me os olhares curiosos, os sorrisos sarcásticos, e os julgamentos alheios. Eu não era um derrotado, apenas havia derrapado um tanto, pensava comigo. Não admitia o embate comum das aglomerações. Se houvesse de comer, conseguiria na disciplina. Não me permitia implorar, eu não estava na Etiópia afinal, aquela cena não parecia real. E existia certa redundância dos que distribuíam alimentos, que intuíam que maloqueiro de verdade deveria estar sujo, abatido, surrado para ser digno de ajuda. As poucas vezes, nesse período inicial, em que fui pressionado pela fome a entrar na fila, eu me via obrigado a ouvir: “Sinto muito, mas é só para quem mora na rua!”. E o fato de ter que reafirmar uma posição em que eu não queria estar me fazia desistir. A negativa soava como uma penitência, uma cobrança, tipo: “quem mandou você precisar?”. Eu retrocedia, pois não conseguia destravar sequer meus obstáculos internos. Eu me sentia culpado pelo meu destino.
No entanto, a questão era somente estética. Aquelas pessoas não vinham para julgar nossos atos passados, apenas seguiam o conceito arraigado na miséria. Grande parte dos que ali estavam, encaixavam-se no perfil “adequado” (até para não correr o risco da recusa). Minha aparência fazia com que eu não merecesse apoio. Inconscientemente, a opção preferida visa ajudar aqueles que ostentam sinais aberrantes de descaso próprio e, portanto, mais distantes de uma recuperação completa em detrimento dos que se apresentavam mais dispostos e preparados para uma ascensão. Do ponto de vista do auxiliador, é mais compensador estender a mão para o maloqueiro interino do que para o temporário. E, quem diria, tornamo-nos nós, os asseados, alvos de preconceito. Tanto dos doadores, como dos optantes pela sujeira. “O cara é maloqueiro e quer andar todo limpinho? Ele qué sê playboy!”.
Tudo em nossas vidas passa a ser condicionado pela subsistência. A pessoa passa a ritualizar as suas refeições como doses diárias de intervenção divina, símbolo de protelação, de continuidade. Se, por vezes, amaldiçoamos o grilhão dessa busca incontornável, sentimos cada dia vivido como um ato heróico, um milagre improvável.
Não nos é permitido escolher ou rejeitar nada segundo nossas preferências. Não é aconselhável que se discuta sobre a qualidade, proveniência ou mesmo a higiene dos produtos consumidos. E se estiver vencido? “Manda pra dentro, amigo. O que não mata engorda!” – seria a resposta.
A prática da boa ação enfrenta a indisciplina e ousadia de maloqueiros enérgicos que desejam sempre os primeiros e escarnecem a funcionalidade da fila. Geralmente irascíveis e alterados, não é a fome que os move, mas a necessidade de se afirmarem como os “mais fortes”. Os humildes ou “otários”, como pensam os primeiros, várias vezes amargam ficar sem nada quando chega sua vez. Neste universo, a ética da sobrevivência aponta constantemente para o extrapolo de qualquer direito igualitário.
Mesmo com poucos dias de estadia em meio à “plebe”, eu já começava a derrubar mitos antigos que carregava sobre as relações humanas em condições de pressão. A decepção mais visível para mim foi descobrir que não havia união de qualquer espécie entre os necessitados. A impressão que se tem quando somos observados apenas, é de que o peso e a dureza das inúmeras formas de privação a que ficamos expostos deveria gerar pendores de comunidade, de irmandade. Quem está fora nos vê talvez como membros de uma grande família. Ao aproximar a lupa, porém, não é definitivamente o que se verifica.
O ser humano mantém a inveja, a competição injusta e o desejo de superioridade mais nefasto frente a qualquer situação. Ser o “azarão” não impõe humildade alguma nas relações, e os espíritos seguem para longe de qualquer tipo de bom-senso. O maloqueiro não se enxerga integrante de um círculo, ele é o centro. Por pena de si, por zelo de sua individualidade ou por pura pretensão, seus atos sempre são baseados no proveito exclusivo. E se, por ventura, age de modo mais humano, logo será tolhido e rejeitado, não só em seu círculo particular, bem como pelo mundo em que vive e aceita esse parâmetro. Ainda que o underground tenha regras típicas de conduta, a essência é a mesma encontrada nas elites: todos querem o Poder, sem menção de risco ou conseqüência, sem visualização do todo, sem interesse no todo. Resta a impressão de que somos maus em gênero e mais difícil crer que sejamos a imagem e semelhança do Altíssimo.