A pergunta que fica é: se no passado o trabalho absorvia e se servia desses desbravadores de terras indômitas, o que os apadrinham agora? Porquê o êxodo prossegue sem a oferta miraculosa de trabalho? O que a substituiu? Se no Rio de Janeiro, apolítica é mais voltada para a expatriação (talvez por seu teor turístico), se São Paulo é a “grande mãe” que acolhe como nenhuma outra, os números sempre crescentes de renegados que nela aportam. Ela se especializou na criação de uma espécie de “indústria da miséria” mas nunca o admitirá oficialmente. O problema se reflete na constatação de que a eventual turbulência que põe alguém fora do trilho social, que o faz desembocar nas ruas não é tão consistente para mantê-lo assim como os processos de escora e desvio que ele enfrenta depois de estar nessa situação. O grau de interesse para “correr atrás” de seu melhor, é visivelmente superior entre moradores de rua do Rio pela ausência de apoio, enquanto Sampa acumulam-se “parasitas” porque oferece essa opção, produz maiores facilidades para isso.
Algumas pessoas visitam os albergues atrás de profissionais (pedreiros, pintores, serralheiros, etc, é possível encontrar de tudo), como nos velhos tempos, embora bem mais raro que aconteça. Essa informação pode invocar a falsa noção de que isso constitui em boas oportunidades. Engano. Os que procuram ali, o fazem apenas para que seja permitido pagar menos do que o normal estipulado à categoria. Estão em busca de escravos que devem se submeter, se agarrar desesperadamente naquele aceno de “boa vontade” que lhe sorri e que serão descartados logo que necessário. Não estou exagerando, somos vistos como propícios para a prática de toda a sorte de abusos, pois a falta de proteção de quaisquer direitos como humanos e trabalhistas. Está implícito em nosso rosto. Por diversas vezes testemunhei o suspiro de alívio se transformar em soluço nervoso em alguns dias por causa das condições impostas pelo “patrão”. As vítimas retornavam ao albergue muitas vezes sem receber. Haviam trabalhado por comida e pouso, e se deparavam com a angústia de precisarem conquistar suas vagas perdidas (que poucos não conseguiam), ainda mais desorientados e sem esperança.
Ao contrário do que se imagina, a maioria possui profissão ou ao menos experiência em algum ramo. O mesmo não se pode dizer sobre documentos. Os sucessivos roubos entre maloqueiros (sim, isto acontece) desanimam as pessoas de retirá-los novamente. Os alcoólatras ao perdem a cada grande porre e alguns têm o recorde de pedidos de segunda via (dez, doze vezes em cinco anos!). Sobressai aí o paradoxo de uma pessoa afirmar com veemência que deseja trabalhar, mas não se preocupar com a vital documentação.
Um exemplo contundente relativo a esses bicos sinistros: nas cercanias do albergue do albergue, uma vez por quinzena, um nissei espertalhão e rotundo estacionava sua Kombi branca e se punha a retrucar com a ajuda de um lacaio, desocupados que estivessem pela área naquele momento. A oferta consistia em leva-los até cidades interioranas da divisa de São Paulo com Minas Gerais (onde o calor humano e ainda puro) e coloca-los a pedir roupas nas casas, as quais ele pagava dez centavos o quilo ao pedinte. Ele provia uma alimentação à base de sanduíches e chá o que punha os famintos a também implorar por comida. Todos pernoitavam na Kombi fora o “chefe”. Ele cobrava qualquer tipo de gasto excedente (cigarro, bebida, etc). Assim a pessoa já devia antes de receber e se obrigava a esmolar alucinadamente para pagar seus débitos. Havia poucos audaciosos que tendo já boa prática (já viviam de pedir invariavelmente), entregavam apenas as roupas, escondendo e revendendo outras doações. O “japa” como era conhecido, sempre andava com seu 38 na cintura porque não confiava plenamente em seus recrutados e, caso o sujeito não levasse jeito ou fosse tímido demais para a tarefa, sem levantar boa quantidade de artigos, ele o abandonava na estrada, recusava traze-lo de volta, sem direito a qualquer discussão. O facínora era dono de três lojas do tipo brechó na Grande São Paulo, por onde ele repassava cada peça a preço mínimo de cinco reais. E posso apostar que até hoje, dois anos após a minha saída de Sampa, ele deve estar praticando essas perversões e não precisará parar nunca, no que depender de ser acionado por alguma lei. É possível que ele seja visto por muitos (que nunca foram ou viram) como um exemplo de pessoa a ajudar e dar uma ocupação aos oprimidos. Não é lindo?
Todo o entorno da Baixada do Glicério me parece um “coração das trevas”, cravado no centro da cidade, visto que não é propriamente um bairro. É um vão entre eles escondido por elevados que, estes sim, desembocam em bairros. A área só é atravessada por quem tem mesmo algum interesse específico nela e, para o restante não significa mais que um ponto de passagem. Em seu raio enxergamos a precariedade social de três fontes: a falta de assistência à saúde, nos pacientes que buscam atendimento no Posto Médico; as discrepâncias da fé nos evangélicos que vêem fazer suas orações na sede mundial da Igreja Deus e Amor, e os exageros e disparates da miséria embaixo dos viadutos. Estes grupos distintos “colidem”, misturando suas carências, divulgando suas penitências.
O elevado que encobre o albergue tem um desvio para outra direção, formando um “V”. Este outro já guarnecera uma enorme favela até anos antes de minha chegada (... final dos anos 80) a qual o cadafalso fora um incêndio em um prédio baixo de quatro andares(invadido e posteriormente doado aos sem-teto) que se alastrou e destruiu quase todos os barracos, antecipando a ação de despejo forçado, o qual a prefeitura já tinha em planos devido aos índices de criminalidade e caos da região.
Quando aportei por ali, final da década de 90, restavam a fama de “lugar mais perigoso do centro”, muitas lendas dos acontecidos na saudosa favela (para muitos), o “esqueleto”, apelido carinhoso dado às ruínas daquele imóvel queimado e cerca de 60 moradores de rua, número pífio perto dos “áureos tempos”, mas desconcertante para mim. A construção de barracos não era mais permitida e o “rapa” criou uma divisão para cuidar apenas das malocas, derrubando e apreendendo tudo o que pudesse servir a esse propósito. Suas incursões eram quase que diárias, seus métodos sempre polêmicos ...

Gostaria de explicar a função deste blog e a escolha do meu pseudônimo, maloqueiro. Trata-se de uma referência, o esmiuçar do tragicômico cotidiano de pessoas que residem e sobrevivem nas ruas. Do tipo que certamente você vê por todos os cantos da sua cidade, e sempre os teve como fantasmas algo indesejáveis a assombrar o brilho dela ou até como seres carentes da mais nobre fraternidade humana. Não importa. Aqui você saberá como é possível resistir sem o social, o ético, o básico e outros que tais.
Eu precisarei, ao te conduzir neste caminho (só explorado por quem a ele é condenado) traduzir usos (gírias e expressões típicas), situa-lo nos vários grupos existentes (pois mesmo na sub-sociedade há muita variedade) e nos ambientes inerentes como albergues, malocas (uma célula ou versão diminuta de uma favela), bocas de rango (locais geralmente religiosos, onde são servidas refeições gratuitas) e outros tais.
Contudo, creio que de início é preciso explicar a palavra central: maloqueiro. Na capital paulista, é assim que as pessoas “normais” se referem ao falar de necessitados em geral (inclusive os que possuem um lar bem pobre e continuam na miséria). No Rio de Janeiro há preferência pelo termo “mendigo”, e no Rio Grande do Sul, sua-se “esmoleiro”.
Sempre teremos um derradeiro fiapo de esperança. E, sim, você matou a charada: eu sou das ruas. Eu vivo nelas há cinco, seis anos. Tenho conhecimento de causa, não sou um observador, um amigo, simpatizante, jornalista ou representante de ONG que relataria o que lhe contam. Não. Apesar de eu ter óbvias discrepâncias em função do maior número deles, eu faço parte desse caldo, estou nele até o pescoço. Mas terei tempo para falar de mim, de como sucede a transição do mundo para o sub-mundo, e de dezenas com os quais convivi, sofri, reparti, até esqueci...

"O esmiuçar tragicômico do cotidiano de pessoas
que residem e sobrevivem nas ruas".
"Aqui você saberá como é possível resistir sem o social,
o ético, o básico e outros que tais".
"Não precisa esconder a carteira: eu não vou pedir trocados.
Desarme-se, relaxe e tente me ver como um ser (como você) somente".
Faz-se necessário destacar o quanto eu ainda me mantinha arredio a estreitar a distância íntima daqueles que me cercavam. Talvez, em certa medida, parte dessa recusa se mantém até hoje. Eu era um deles. Não integralmente, pois continuava algo inatingível com respostas monossilábicas, expressão pouco convidativa, e timidez exacerbada. Mesmo que houvesse precisão, eu não falaria nada. Eu temia que o meu objetivo de sair dali o mais rápido possível pudesse ser maculado. Parecia sentir o poder de influência degenerardora de condutas tão radicais para minha percepção familiar. Meu dissabor era a expectativa de que aconteceria, sumariamente, um ponto de convergência qualquer, alguém assumiria a função de Ponte da Amizade entre mim e aquele caudaloso e movediço riacho de sensações. E todo “mistério” traz atração e tende a aumentar o interesse por seus detalhes.
Na rua, todas as personalidades são marcantes, atuantes (dentro de sua disposição). É preciso “demarcar território”, controlar conscientemente todo o tipo de exposição e evidência, buscando equilíbrio entre o que esperam de nós e aquilo que estamos propensos a entregar. Aqui, eu me refiro ao nível psicológico, pois obviamente este controle não é possível nos demais campos. Ainda que agindo quase como se não estivesse no meio, eu temia que isso pudesse atrair mais do que o planejado.
Essa questão não era regida pelo preconceito. O caso não era aceitar me “rebaixar” para aquela condição. Os pontos maiores de aversão eram o medo do desconhecido, a lembrança, ainda recente, do mundo “normal”, e o receio de que minha tendência à aventura, leia-se erro, me pendessem para ainda mais longe. Eu ainda me sentia como a pessoa que transitava na calçada do outro lado da rua, olhando, com pena e apreensão, para os “mendingos” aglomerados embaixo do viaduto. Eu havia cruzado a barreira. Eu estava materializado ao lado deles, mas a minha psique seguia transitando fantasma entre os “comuns”. E esse espectro, ainda muito me assombraria, só que agora eu me tornara merecedor, receptor do mesmo tipo de olhar que antes portava...